Canto Literário



Há livros divertidos. Aqueles em que nos deixam ansiosos para saber qual é o próximo passo do protagonista da história. E é preciso muito autocontrole para não mexer os dedinhos e folhear as páginas dos próximos capítulos. Se você é um leitor controlado, há duas obras que devem estar em cima do seu criado-mudo nos próximos meses. Caixa de Pássaros e 172 Horas na Lua.

Em Caixa de Pássaros sabemos que há alguma coisa lá fora que não deve ser vista. Durante toda a leitura, o leitor se pergunta. O medo pode nos cegar a ponto de nos privarmos de observar o mundo sem uma venda nos olhos?

Na história, cinco anos se passaram desde que os sobreviventes fecharam as portas e taparam as janelas de suas casas com cobertores. Sem saber em quem confiar, eles não saem mais às ruas, não sem uma venda nos olhos. Caminhar de olhos descobertos significa ser levado a cometer atos violentos e se suicidar. Há alguma coisa lá fora. Uma criatura que não deve ser vista. Mas que criatura? Ninguém sabe.

Sozinha, dentro de uma casa abandonada, próxima de um rio no Michigan, Estados Unidos, Maloire e seus dois filhos pequenos se escondem por detrás dos lençóis das janelas. Há quatro anos atrás, um grupo liderado por Tom, seu melhor amigo, viveram naqueles cômodos, agora vazios. Mas Maloire sabe que precisa arriscar-se e deixar a casa. As crianças precisam de um lugar seguro. É quando ela vê, no surgimento de uma misteriosa neblina, a oportunidade de sair. Com os olhos vendados, contando apenas com sua coragem e com os ouvidos treinados e sensíveis dos filhos, Maloire entra em um pequeno barco a remo. Serão 32 quilômetros rio abaixo, às cegas, até o local onde espera que ela e as crianças ficarão em segurança. Mas em um determinado ponto do rio, para encontrar o caminho, Maloire terá que abrir os olhos.

“(...) O rio vai se dividir em quatro canais. O que você precisa pegar é o segundo à direita. Então não adianta se agarrar à margem direita e torcer para conseguir chegar. É complicado. E você vai ter que abrir os olhos. Malorie balança a cabeça devagar. Não.

O thriller Caixa de Pássaros de Josh Malerman, da editora Intrínseca, leva o leitor a acompanhar a protagonista e vivenciar com ela, suas alegres e dolorosas lembranças. Alternando passado e presente, conhecemos a vida da narradora antes de sua chegada à casa e após o surto que matou todos seus parentes e amigos. O querido Tom, Jules, Don, Cheryl, Felix e Olympia.

O suspense em cada capítulo é tão angustiante quanto acompanhar Felix ou Tom em sua caminhada, às cegas, até o poço de água a alguns metros da casa. Será que eles estão sozinhos ou caminham acompanhados por uma das criaturas?

Mas o que o leitor se pergunta durante a leitura é se eles devem temer algo que nem conseguem definir o que é. Esconder-se por detrás de uma venda e manter os olhos fechados é a única coisa que eles podem fazer? Isso é o suficiente para mantê-los vivos? Não para alguns.

“(...) Bem, alguma coisa tem que mudar – afirma Tom. – Precisamos progredir. Caso contrário, ficaremos esperando notícias em um mundo onde não há mais notícias.”

(Caixa de Pássaros - 1ª edição/2014 - Ficção – 272 págs. - Editora Intrínseca)

Já em 172 Horas na Lua, do autor Johan Harstad, não há apenas uma protagonista, mas três adolescentes – a norueguesa Mia, a japonesa Midori e o francês Antoine – que vencem um sorteio mundial promovido pela NASA e partem para uma estadia de uma semana na base lunar DARLAH 2.

Estamos no ano de 2018. Logo a empolgação e os planos que cada um traçou para si começam a ruir. Algo ou alguém passa a acompanhar os passos dos jovens na solidão do solo lunar.

No início, o leitor precisará ter um pouco de paciência. Harstad apresenta detalhadamente cada personagem, antes de dar início à história e acelerar o seu ritmo. São três partes – A Terra, O céu e Depois. A ação inicia-se a partir da segunda parte, quando a tripulação chega ao Mar da Tranquilidade. E assim que a nave Ceres pousa na Lua, tudo começa a acontecer.

“(...) Poucos segundos depois, Nadolski e Antoine avistaram duas figuras a uns trezentos metros de distância. Caminhavam na direção deles, lenta mas, inegavelmente, cada vez mais perto. Nenhuma delas usava traje ou capacete espacial... Não havia onde se esconderem. Era impossível fugir. A última coisa que Antoine notou foi que um deles se parecia com Nadolski. E que o outro tinha exatamente a mesma aparência dele (...).”

Instalados na base DARLAH, a tripulação passa a ser surpreendida por acontecimentos que apenas compreenderão quando já for tarde demais. Ao leitor, cabe acompanhar seus protagonistas e tentar, junto com eles, decifrar as pistas.

(172 Horas na Lua - 1ª edição/2015 – 280 págs. - Editora Novo Conceito)