Canto Literário

Véu Azulado - 2a parte
Autora: Viviane França

Caminhar ao lado do jovem pela Floresta, deixou Beatrice menos tensa. A sinuosa e sombria trilha e o silêncio estarrecedor já não mais a incomodavam tanto.
E eles já andavam há alguns minutos quando avistaram uma grande clareira à frente. Iluminada por uma fogueira e banhada pela luz do luar, ela era ampla e rodeada por altas árvores.
Tão logo se aproximaram, Beatrice avistou Diana, a Guardiã. De pé, próxima da fogueira, ela conversava despreocupadamente com um pequeno grupo de garotas. O olhar curioso e o aparente nervosismo de todas indicavam que se tratava das outras Convocadas.
E Beatrice já se preparava para andar em direção a elas quando sentiu uma mão fria segurar seu antebraço.
- As Filhas da Lua pedirão sua permissão para conduzi-la à Toca. Recuse – murmurou o jovem.
- Recusar? Não, eu não posso.
- Você pode e deve – disse ele enfático. – Você tem o direito de aceitar ou recusar o pedido.
Mas antes que Beatrice pudesse argumentar com ele, Diana os avistou. Com um grande sorriso ela deixou o pequeno grupo e caminhou em direção aos dois.
- Ai está você Beatrice! Pensei, por um instante, que você não viria.
- Desculpe-me pelo atraso Diana, mas eu me perdi – respondeu ela com a face levemente corada.
- Não precisa se desculpar. Você não é a primeira Convocada a não encontrar o caminho. Sorte a nossa termos sempre Caleb por perto – disse Diana e seu olhar encontrou-se, brevemente, com o dele. – Obrigada por trazê-la. Você pode agora deixá-la conosco.
Apesar do olhar duro, a hostilidade de Diana não pareceu incomodar o jovem. Com um sorriso discreto ele a ignorou, voltando sua atenção para Beatrice de quem se despediu com um aceno de cabeça. Então com passos largos caminhou em direção as árvores, embrenhando-se na sombria mata. Em sua passagem, uma névoa azulada surgiu e cobriu a clareira.
Mesmo com a luz da Lua Cheia banhando o lugar, Beatrice não conseguiu mais enxergar os rostos das outras Convocadas. A névoa que agora pairava sobre a clareira, transformara tudo a sua volta em um simples borrão. Sem a visão, ela concentrou-se nas vozes. Todas conversavam sem parar umas com as outras.
- Caleb tinha razão. Eu não deveria estar aqui – murmurou ela para si mesma.
Talvez fosse o lugar, talvez as palavras de advertência do misterioso amigo, mas sem que Beatrice pudesse evitar seu corpo começou a lhe enviar estranhos sinais.
Primeiro ela sentiu sua audição tornar-se mais aguçada. Sensível a qualquer ruído e confusa com os timbres de vozes que soavam de todos os lados. Em seguida sentiu a sensibilidade chegar ao olfato. Com ela aromas de madeiras sendo queimadas, de óleo de amêndoa se diluindo em água fervente, de terra fértil misturando-se ao cheiro de grama molhada. Sensações que lhe causaram mal-estar e insegurança. Que colocaram seu corpo em estado de alerta. E surpresa com a própria reação, Beatrice permaneceu quieta e imóvel, aguardando pelo início da cerimônia.
Então as silhuetas tornaram-se mais nítidas, dando contorno aos objetos a sua volta, revelando a ela as expressões de medo, ansiedade e excitação das outras Convocadas.
Longe das Candidatas, mas não o suficiente para se passarem despercebidas estavam às outras Filhas da Lua. De expressão dura e altiva, elas preparavam o Ritual.
Então sem nenhuma intenção, Beatrice fixou o olhar sobre a Guardiã que já a observava com atenção. Sem intimidar-se com seu olhar severo, a jovem o sustentou por algum tempo. Ela estava tão absorta que não percebeu quando Caleb surgiu ao seu lado.
- Não a desafie. Você ainda não está pronta – disse ele numa voz suave.
Sua voz vinda por de trás a fez saltar.
– Não me faça mais isto. Você quase me matou de susto!
- Pare de falar por um minuto e me escute. Não temos tempo – disse ele. - Há apenas um modo de mantê-las afastadas de você.
- Mantê-las afastadas de mim?
- Sim. Diana pedirá que você retire todas as jóias que carrega no corpo.
- Jóias? Quem me dera ter uma. Levo apenas...
- Conserve uma de suas pulseiras no braço – continuou Caleb, sem se importar com o olhar perplexo de Beatrice. – Elas são de prata, não são?
E Beatrice confirmou balançando a cabeça.
- As mantenham longe dos olhos da Guardiã. E não se esqueça. Não entre na Toca. Não deixe que o medo a envolva. Recuse. Haja o que houver, recuse o convite.
Então Caleb, novamente, a deixou sozinha. Tão rápido quanto surgiu, ele desapareceu por detrás de uma névoa azulada, deixando sua suave fragrância de jasmim pelo ar.


Continua...
O Conto será publicado em quatro partes. De 22 a 25 de maio

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